Tabefe

09/05/2009 10:30
Elogios

Como leonina besta que sou, adoro um afago no meu ego. Principalmente quando o incentivo é espontâneo. Na minha aula preferida do semestre, a de produção de textos, a professora leu uma narrativa minha, sem a identificação do autor. O tema obrigatório era mostrar um político em campanha.

Os meus colegas curtiram, riram nos momentos em que coloquei algo divertido no texto e demonstraram interesse pelo desenrolar da história. A teacher, normalmente atenta a qualquer deslize, só fez comentários positivos.

Me valeu o dia... E meu ego leonino ficou faceiro nessa semana que passou!

Candidato Caô-Caô

Entra no carro, suado e exausto, após duas horas percorrendo a Lomba do Pinheiro, um dos bairros carentes de Porto Alegre. Ser um político em campanha, pensa, não é algo fácil, como muita gente fala por aí ou escreve nos jornais.

- Deputado, o senhor vai para casa agora? – pergunta o assessor, solícito, com um bloco de anotações e uma caneta nas mãos.

- Não, Alfredo. Vamos para o comitê. Lá mesmo eu tomo um banho rápido e vamos ainda hoje fazer um corpo a corpo na Restinga.

- Será mesmo necessário, deputado? O senhor parece cansado.

Não responde e olha pela janela do carro. O veículo é muito bem conduzido pelas ruas esburacadas daquela parte da cidade por seu fiel motorista Antonio, que o acompanha desde o primeiro mandato parlamentar. Suspira.

O deputado sente dor de estômago. É o que acontece a cada vez que precisa mentir para obter votos. Ao longo dos anos como político, desenvolveu uma gastrite crônica. No início, tentou fazer algo pelo povo. Esse pensamento sempre o consola nas noites de insônia.

Mas depois vieram os lobbistas, o desvio de recursos, as passagens aéreas gratuitas, o telefone funcional e todas as vantagens que sabe que os brasileiros comuns não possuem.

Aos poucos, percebeu que foi perdendo a sinceridade contida nas promessas iniciais. E essas frases de efeito, como acabar com a fome e a pobreza, passaram a ser só um discurso vazio. Tudo seria mais simples, se não precisasse retornar para os mesmos lugares em razão das eleições.

- Deputado, chegamos – fala o assessor.

O entorno do comitê está lotado. Gente pobre e feia, pensa o parlamentar, enquanto aperta, com jeito alegre, aquelas mãos calosas e meio sujas. O esgoto continua a céu aberto, na vila onde essas pessoas moram. Há quatro anos, o deputado garantiu que resolveria tal problema. As pessoas parecem não se lembrar de nada. O abraçam, pedem favores e sorriem, com suas bocas com poucos dentes e hálito fétido.

- Minha gente, vou salvar esse país. Quando forem votar, é em Walter Medeiros, hein? 66.666 é o meu número.

O estômago dói, mais uma vez. Entra às pressas em seu escritório particular, que fica na parte de cima do comitê. Engole um comprimido, receitado pelo melhor gastroenterologista do Brasil.

- Um dia, me livro disso tudo. – balbucia, confuso.

Alfredo entra na sala, sem bater, e fala que é preciso apressar-se. Havia confirmado a presença do deputado no almoço de uma associação comunitária.

Quando o assessor aconselha-o a não usar gravata, para ficar mais informal, Walter cantarola, sem perceber:

“Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha, bebeu cachaça e até
bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato
eu logo percebi é mais um candidato
Às próximas eleições...”

O assessor olha para o deputado, perplexo.

- Por favor, nunca mais cante essa música, deputado. Ela é ofensiva a qualquer político honesto, como o senhor.

Walter concorda, voltando a sua postura circunspecta habitual. Estou enlouquecendo, pensou. Cantar Bezerra da Silva perto do Alfredo. Era o que faltava. Preciso falar com meu neurologista. Umas pílulas para diminuir o estresse seriam bem-vindas.




Valeu pela inspiração! Grande Bezerra!!
enviada por Flávia Cunha



01/05/2009 09:47
Um texto fofo

Mais um da série o que escrevi para a faculdade. O exercício era colocar no papel o relato de um colega que tivesse ocorrido no Campus do Vale da UFRGS. Nesse caso, a Lúcia é filha de uma professora da Letras. O que ampliou o campo de memória, trazendo à tona uma história da infância dela.

Ah! Era obrigatório escrever uma narrativa em terceira pessoa. Confiram abaixo o resultado:


Aventura

A mãe olha para a menina, de uns sete, oito anos. Cabelos lisos, olhos sapecas e escuros. De um modo preocupado, pergunta:

- Tem certeza mesmo que consegue voltar aqui, Lu?

A filha balança a cabeça, em sinal afirmativo. Saí, sem olhar para trás. Sorri para si mesma, sentindo-se orgulhosa. Desce uma escada e chega até o bar. O Antonio’s, como sua mãe sempre diz.

Com sua voz fina, faz o pedido, tirando algumas notas amassadas de dentro de uma bolsa cor-de-rosa minúscula, que traz a tiracolo.

- Um Chokito e três balas daquelas ali, fala, apontando para a prateleira colorida que fica atrás do homem de bigode.

Ele sorri e entrega os doces, com o troco. Conhece a filha da professora Ana desde bebê. Ela visita o Instituto de Letras pelo menos uma vez por semana. Porém, essa é a primeira vez que vê a criança sozinha ali. O atendente tenta fazer uma brincadeira, mas Lúcia parte da lancheria como um pequeno furacão.

Com passos curtos e rápidos, quase saltitando, ela caminha pelo prédio, ouvindo fragmentos de conversas. – ‘Tão falando em inglês, comenta para si mesma, ao passar por uma das turmas. Logo, começa a achar que todas as portas do longo corredor parecem iguais.

Olha para dentro das salas e, finalmente, decide entrar em uma delas. A mesa do professor está vazia. Senta-se em uma classe e tenta não chamar a atenção, mas alguns alunos a olham com curiosidade. Porém, ninguém faz perguntas.

Algum tempo depois, quando já havia devorado toda a barrinha de chocolate, entra no local um velho alto e magro, carregando muitos livros. Senta-se e imediatamente começa a fazer a chamada.

Ele olha na direção onde Lúcia está sentada, mas não parece notar nada de diferente. A menina coça a cabeça e pensa no que fazer. Tem vergonha de interromper a aula, porém quer muito reencontrar com sua mãe. Onde, afinal, ela estaria?

Faz menção duas vezes de levantar-se e desiste. – Por isso que o pai me fala para eu deixar de ser tímida, murmura. Aproveita para escapar no momento que o professor vira-se para escrever no quadro-negro.

Na dúvida sobre a localização de sua mãe, vai até o pátio. Senta-se em um banco e abre a bolsinha. Come uma bala, enquanto sente que pode chorar, a qualquer momento.

De repente, vê a mulher mais linda do mundo chegando, com seu cabelo loiro sempre arrumado e um perfume gostoso. Abraça-a com força.

- Lu, estou te procurando há horas, reclama.

- Mãe, eu me perdi. Mas isso não vai acontecer mais. É só colocar uns pedacinhos de pão no caminho. Dentro do prédio não tem passarinhos pra comer os farelos, né?

A professora Ana sorri, aliviada. Essa sua filha, sempre fazendo analogias do mundo real com a literatura... Quem sabe um dia não estudava Letras?




Intertextualidade, uma das características
que podem aparecer no gênero narrativo.

enviada por Flávia Cunha



22/04/2009 08:46
Na falta de algo melhor...

... posto aqui um trabalho escrito para a disciplina de Leitura e Produção Textual. Aliás, to adorando essa cadeira! O tema era uma narrativa mostrando uma emoção forte. Acho que eu consegui atingir o objetivo. Confiram a seguir.

Traição

- Ou eu, ou ele – disse, com a voz saindo menos segura do que eu gostaria. Ela me olhou, abaixou a cabeça, não falou nada. Senti como se fosse um soco. Mas não, ela não havia se movido.

Com o choro ainda contido, corri para o quarto. Abri o guarda-roupa e juntei camisetas, calças e alguns vestidos e enfiei de qualquer jeito dentro de uma mochila. Ela tentou me impedir, aos gritos, mas consegui sair correndo de lá.

Já na rua, as lagrimas escorreram livres pelo meu rosto. As pessoas que passavam me olhavam, com uma certa piedade. Caminhei algumas quadras, que pareciam intermináveis. Finalmente, cheguei ao meu destino. Fiquei alguns minutos parada na frente da casa, insegura.

Finalmente, toquei a campainha. Ele abriu a porta quase em seguida.

- Me ajuda! Posso ficar aqui?

- É claro, minha filha! Eu imaginei que não seria fácil para ti aceitar o novo marido da tua mãe...

Depois disso, as recordações são meio confusas. Lembro de ter chorado muito, enquanto ele me consolava, incansável. Daquele episódio, guardo até hoje o gosto amargo da deslealdade. E que às vezes retorna, sem pedir licença.





O texto acima é baseado em um dos meus fantasmas nada camaradas.

enviada por Flávia Cunha



09/04/2009 19:38
Piloto automático

Esse é o motivo pra ficar quase dois MESES sem postar nada. Cumpro as obrigações do dia a dia e deu. Já estou exausta e sem saco.

Enquanto a inspiração não vem, curtam frases ditas pelo meu fofo sobrinho Flávio, de 8 anos. Divirtam-se:

"Ah, é que é tu é mais do rock, né?", (compreensivo, ao constatar minha incompleta ignorância sobre duplas sertanejas).

"Esse era meu sonho desde criancinha" (debochando, ao conseguir a carta do Wolverine no Super-Trunfo da Marvel, um dos nossos presentes adiantados de Páscoa pra ele).


É por essas e muitas outras (como ele ser fã da Amy Winehouse) é que adoro esse pequeno!!!





Aliás, tô louca pra assistir o longa-metragem sobre o Wolverine!!!
enviada por Flávia Cunha



14/02/2009 18:26
Hasta la vista, babies

Esse blog está oficialmente em férias até a primeira semana de março.

Aos meus raros leitores, deixo a pergunta: é o cúmulo da incoerência alguém passar 3 horas no salão de beleza e aproveitar o tempo para ler um livro com enredo violento do Rubem Fonseca?

Me senti muito estranha fazendo isso... Mas enfim, sou um ser incoerente mesmo!

No mais, to indo pra esse lugarzinho ruim da foto abaixo. Fui!!!




enviada por Flávia Cunha



10/02/2009 18:33
Dois pra lá, Dois pra cá

A trilha sonora do momento é Alabama Song. ("Show me the way to the next whisky bar...")

Primeiro, porque eu amo The Doors e volta e meia escolho a minha preferida. A anterior foi We Could Be So Good Together, do inspirado álbum Waiting for the Sun.

A segunda razão é o fato de que adotei ultimamente uísque com guaraná como A Bebida. Claro, isso até eu resolver voltar a tomar smirnoff ice... Ou caipirinha. Ou vinho branco. Tá, eu sou uma bêbum volúvel, eu sei.

E apesar de ser fevereiro e ter aquele clima ala-la-ô pelas ruas do meu Brasil, eu sou mesmo é do contra. Minha alma se arrepia de raiva cada vez que passa na TV a cabo um comercial com a diva do axé Daniela Mercury.

Ela dá dicas sobre como passar bem no Carnaval na Bahia. Entre as sugestões bizarras, estão:

1. Não use chinelo, porque senão o calçado será destruído pelos pisões de outros foliões.

2. Não use roupas curtas, se você não quiser que passem a mão em você.

3. Por conta desse fogo (sic), use camisinha.

4. Guarde o dinheiro dentro do sapato, para não ser assaltado.

5. Não fique só nos camarotes, aproveite as ruas.

Eu não sei se fico mais horrorizada com a tranquilidade com que ela fala das passadas de mãos e assaltos ou como a cara de pau de
reiterar, logo em seguida, as delícias de aproveitar o carnaval em meio à multidão.

As ferramentas "ultramodernas" do blog não me permitem postar vídeos, mas aí vai o link da bobagem.

É constrangedor, criaturas. Não digam que não avisei.

http://www.youtube.com/watch?v=-HdZ74CS3mM

E pra relaxar, aí uma versão ao vivo da minha obsessão sonora.

http://www.youtube.com/watch?v=eutCKM0kzpw



Uísque com guaraná é coisa de bolero, eu sei.
Mas alma permanece rocker, em pleno carnaval.


enviada por Flávia Cunha



02/02/2009 18:43
Delícias de verão

O exercício de ler duas obras literárias ao mesmo tempo pode ser esquizofrênico, divertido ou inusitado. Por acaso, escolhi dois livros que têm muitos pontos em comum sobre a história recente do Brasil.

Chega de Saudade, de Ruy Castro, sobre a trajetória da Bossa Nova e Os Irmãos Karamabloch, de Arnaldo Bloch, um dos descendentes da poderosa família ucraniana, dona do extinto grupo de comunicação Manchete.

A partir de um determinado momento, coadjuvantes passam a ter histórias nos dois enredos. Nelson Rodrigues faz comentários sobre Adolfo Bloch e vai a shows de Bossa Nova. Otto Lara Rezende também é fã do gênero musical, ao mesmo tempo em que trabalha para a revista Manchete.

Pedro, médico, fonoaudiólogo e famoso dramaturgo dos anos 70/80, é primo dos Bloch e teve diversas histórias relatadas na obra escrita pelo sobrinho. Ao mesmo tempo, foi um dos especialistas que tratou João Gilberto quando ele embestou que tinha problemas nas cordas vocais.

Esses são apenas alguns exemplos das coincidências que encontrei ao longo das duas leituras. O que tornou a reflexão sobre as obras mais proveitosa, eu acho.

Mas essas férias estão sendo ótimas para ler assim, sem compromisso. Provavelmente Grande Sertão Veredas estará na minha lista de leituras forçadas para 2009.

Mas até março, vou só me divertindo. Cem Anos de Solidão, do Garcia Márquez, e Carta ao Pai, do Kafka, irão comigo para Santa Catarina, na segunda quinzena de fevereiro.

Entre mergulhos, caipirinhas, risadas e camarões, a literatura e o Chico serão minhas companhias certas.




No meio da mulherada, Tom Jobim e João Gilberto curtem uma praia.
enviada por Flávia Cunha



15/01/2009 11:14
I'm back

Eu poderia dar a desculpa da correria de final de ano. Também diria que tenho trabalhado muito. E que tenho acordado mais tarde e com preguiça em função das férias na UFRGS.

Mas a verdade é que tenho não existe uma razão concreta para ficar um mês sem escrever aqui. Falta de inspiração não é. Afinal, os textos aqui são tão despretensiosos que seria uma bobagem falar em bloqueio criativo ou algo assim.

A real é que estou de volta. O Natal passou, o Ano Novo também. 2009 chegou de mansinho. Metade de janeiro já se foi, veloz como são os dias da vida adulta. (Quando eu era criança, achava que 6 meses era uma eternidade. Hoje, minha opinião é oposta.)

O que dá pra se dizer é o que ano que acabou foi bem produtivo. Voltei a estudar, depois de muito tempo. Consegui emagrecer aqueles 5 kg que nunca me largavam e eles não voltaram. Comecei a me preocupar mais com a questão estética, sem ter largado de mão o lado intelectual.

Claro que existem milhares de coisas que gostaria de fazer e de realizar nesses próximos 12 meses. Muitas não dependem só de mim e por isso prefiro não explicitar nesse espaço...

O essencial é ter energia pra manter o astral em alta! E lá vamos nós, como diria a bruxa do desenho do Pica-pau.





Que 2009 seja uma maravilha!!!
enviada por Flávia Cunha



15/12/2008 12:46
Louco de cara

Sensível e delicado, mesmo ao abordar temas gaudérios nas letras. Só mesmo Vitor Ramil para conseguir isso.

Foi com esse pensamento que saí ontem do show no Santander Cultural. A apresentação se resumia a voz e violão, além de uma simpatia mansa, de quem se impõem pelo talento e não pelo marketing massivo das grandes gravadoras.

Pra mim, o Vitor Ramil é daqueles casos em que o artista consegue tornar universal o que é regional. E vice-versa.

E ao falar do pampa, do pingo e do chimarrão de uma maneira muito própria, passando ao longe do ranço dos CTGs, consegue tocar fundo minha alma urbana...

"(...) Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido"








enviada por Flávia Cunha



02/12/2008 11:56
Cultura (in)útil

Informações recebidas ao longo dos últimos meses:


* A origem da palavra aluno vem da expressão sem luz, em latim. O que justificaria o tratamento concedido até hoje por alguns professores a seus pupilos...

* Conforme o professor Luiz Augusto Fischer, o termo favela surgiu quando ex-combatentes de Canudos foram morar no Rio de Janeiro. Favela era um tipo de vegetação comum no sertão e dava nome a um morro dessa região.

* Guion significa roteiro em espanhol. Em um documentário que assisti com o Selton Mello ele comentou que seria a definição mais adequada, já que o roteiro realmente serve como um guia para um diretor. E provavelmente vem daí o nome do cinema em Porto Alegre. Sobre o qual, aliás, nunca questionei a origem...


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Morro da Favela, by Tarsila do Amaral
enviada por Flávia Cunha






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